quinta-feira, 12 de julho de 2018


Os  gatos da Nhanha

Junto ao pinhal do enforcado e num amontado de tábuas torcidas pela idade e de cobertura disforme em chapas enferrujadas, vivia a Nhanha, uma velha que se movimentava sem tocar os pés no chão de tão fraca figura que era, vestida de negros e ensebados trapos bordados a largos buracos  que se uniam na cintura delgada adornada de uma corda cheia de nós e borbotos. Usava um lenço negro que lhe cobria parcialmente o rosto enrugado e emoldurado de cabelo solto grisalho e  quem se atrevia a olhá-la de frente,  dizia que o queixo batia no nariz pontiagudo.
Velha enigmática e solitária que em tempos  inquisitoriais teria sido queimada na fogueira em qualquer procissão de fé, mas não! Vivia calma, barraca dentro e barraca fora, despejando baldes de água escura  e arrancando erva que a pendurava em molhos no beirado. De tempos em tempos era acossada por pequenos gaiatos malandros que atiravam pedras para o telhado e divertiam-se vendo a nhanha saindo apavorada da barraca de punhos erguidos amaldiçoando tamanha maldade. Ir à nhanha mandar pedras era pratica diária da maldade juvenil, não bastava as gentes de rua que fugiam dela porque estava suja e malcheirosa, ou porque tinha sido uma mulher “mal-comportada” que lhe valeu a alcunha de  NHANHA, coisa asquerosa, repugnante, era uma triste figura rodeada de moscas e gatos.
Corriam boatos que o pinhal defronte do barraco, tomou o nome de pinhal do enforcado, por ter sido num dos pinheiros onde  se matou o homem que verdadeiramente a amou em anos muito recuados da sua juventude.Esse grande amor trabalhava num circo como músico e ela seria filha do dono do circo. Um mal entendido, ciúmes, invejas, desde esse fatídico dia que a pobre mulher decidiu acampar frente ao pinheiro onde o amante se enforcou e aí ficou durante anos e anos em penitência eterna construindo o barraco e rodeando-se de miséria coroada com a longa vida amarga onde nem Deus alguma vez entrou ou se compadeceu. Pobre mulher, foi vitima de todas as pragas do antigo testamento, as moscas, os ratos, os sapos, os piolhos, e gatos…..mas os gatos em seu redor até pareciam filhos dela. Eram ninhadas e ninhadas que surgiam entre latas, caixas  e junto aos canaviais. A Nhanha falava com eles, gritava, berrava e cantava e um deles me despertou a atenção, era amarelinho e tinha um ar de brincalhão, era o predileto dela, pois reparava que ela o trazia sempre ao colo.Só lhe faltava tocar um instrumento de música.
Um dia vindo da escola, reparei na Nhanha adormecida junto à entrada da barraca, com um ar sereno, tranquilo, tinha o rosto descoberto e não tinha o queixo colado ao nariz como todo o mundo maldizente apregoava, estava com a boca ligeiramente aberta mostrando a ausência total dos dentes. Pela primeira vez lhe vi o rosto cansado. O gato amarelo estava também adormecido ao seu colo e virando o caminho olhei uma última vez aquele cenário. Senti-me triste, senti uma mágoa tão grande que me deu vontade de chorar, senti que a vida humana não se poderia resumir àquela cena….só a morte poderia libertar e dar felicidade àquela mulher.
Arrependido fiquei de nunca lhe ter dito: Bom dia! Nunca venci o medo e era tarde demais para o fazer. O barraco estava coberto de silvas, selada a memória com espinhos e esquecimento. O gato nunca mais o vi. De tempos em tempos vejo um gato amarelinho, tolhido pela idade, escondendo-se entre arbustos e espinheiros no pinhal do enforcado.
Gato modelado em barro branco esmaltado – Vitor Pires fecit

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