Os gatos da Nhanha
Junto ao pinhal do enforcado e num amontado de tábuas
torcidas pela idade e de cobertura disforme em chapas enferrujadas, vivia a
Nhanha, uma velha que se movimentava sem tocar os pés no chão de tão fraca
figura que era, vestida de negros e ensebados trapos bordados a largos buracos que se uniam na cintura delgada adornada de
uma corda cheia de nós e borbotos. Usava um lenço negro que lhe cobria
parcialmente o rosto enrugado e emoldurado de cabelo solto grisalho e quem se atrevia a olhá-la de frente, dizia que o queixo batia no nariz pontiagudo.
Velha enigmática e solitária que em tempos inquisitoriais teria sido queimada na
fogueira em qualquer procissão de fé, mas não! Vivia calma, barraca dentro e
barraca fora, despejando baldes de água escura e arrancando erva que a pendurava em molhos no
beirado. De tempos em tempos era acossada por pequenos gaiatos malandros que
atiravam pedras para o telhado e divertiam-se vendo a nhanha saindo apavorada
da barraca de punhos erguidos amaldiçoando tamanha maldade. Ir à nhanha mandar
pedras era pratica diária da maldade juvenil, não bastava as gentes de rua que
fugiam dela porque estava suja e malcheirosa, ou porque tinha sido uma mulher
“mal-comportada” que lhe valeu a alcunha de
NHANHA, coisa asquerosa, repugnante, era uma triste figura rodeada de
moscas e gatos.
Corriam boatos que o pinhal defronte do barraco, tomou o
nome de pinhal do enforcado, por ter sido num dos pinheiros onde se matou o homem que verdadeiramente a amou
em anos muito recuados da sua juventude.Esse grande amor trabalhava num circo
como músico e ela seria filha do dono do circo. Um mal entendido, ciúmes,
invejas, desde esse fatídico dia que a pobre mulher decidiu acampar frente ao
pinheiro onde o amante se enforcou e aí ficou durante anos e anos em penitência
eterna construindo o barraco e rodeando-se de miséria coroada com a longa vida
amarga onde nem Deus alguma vez entrou ou se compadeceu. Pobre mulher, foi
vitima de todas as pragas do antigo testamento, as moscas, os ratos, os sapos,
os piolhos, e gatos…..mas os gatos em seu redor até pareciam filhos dela. Eram
ninhadas e ninhadas que surgiam entre latas, caixas e junto aos canaviais. A Nhanha falava com
eles, gritava, berrava e cantava e um deles me despertou a atenção, era
amarelinho e tinha um ar de brincalhão, era o predileto dela, pois reparava que
ela o trazia sempre ao colo.Só lhe faltava tocar um instrumento de música.
Um dia vindo da escola, reparei na Nhanha adormecida junto à
entrada da barraca, com um ar sereno, tranquilo, tinha o rosto descoberto e não
tinha o queixo colado ao nariz como todo o mundo maldizente apregoava, estava
com a boca ligeiramente aberta mostrando a ausência total dos dentes. Pela
primeira vez lhe vi o rosto cansado. O gato amarelo estava também adormecido ao
seu colo e virando o caminho olhei uma última vez aquele cenário. Senti-me
triste, senti uma mágoa tão grande que me deu vontade de chorar, senti que a
vida humana não se poderia resumir àquela cena….só a morte poderia libertar e dar
felicidade àquela mulher.
Arrependido fiquei de nunca lhe ter dito: Bom dia! Nunca
venci o medo e era tarde demais para o fazer. O barraco estava coberto de
silvas, selada a memória com espinhos e esquecimento. O gato nunca mais o vi.
De tempos em tempos vejo um gato amarelinho, tolhido pela idade, escondendo-se
entre arbustos e espinheiros no pinhal do enforcado.
Gato modelado em barro branco esmaltado – Vitor Pires fecit
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