quinta-feira, 12 de julho de 2018


O Fernandinho

Esta figura de fraca aparência, magra e ar de tonto percorria as redondezas levando sempre nas mãos uma caninha gasta pelo seu valor estimativo.
Imitava sons estranhos como se da alma criativa emanassem e olhava discretamente pelos cantos dos olhos a nossa admiração por tamanhas façanhas de mestre. Fernandinho era assim, alto,descalço, de joelhos negros e pernas arqueadas parecia uma figura retirada de uma sombra das labaredas de uma fogueira.
No Verão, alimentava-se de bagas e abóbora porqueira que encontrava pelos caminhos de poeira e de Inverno alimentava-se de laranjas que pendiam dos muros dos quintais.
Alegre e despreocupado, carregava o seu mundo que ninguém queria carregar, dormia ao relento e ou em cabanas de pastores.
Espreitava à porta da taberna e era expulso antes de colocar o pé para dentro das portas teimosas. O taberneiro não queria um doido na sua taberna, faria parecer mal aos bêbados ter alguém que não estando bêbado e sem consumo era tão doido como os fregueses. Ele apenas pedia apontando para  um carapau em escabeche que estava na montra do balcão há mais de uma semana e nem isso, nem um queijo do frasco dos queijos em azeite, nem um ovo cozido. O taberneiro era de má tempera e a mulher que usava um grande cruxifixo de ouro ao peito não era melhor. Fernandinho não tinha dinheiro, não era bem vindo. Tanta fome que lhe enchia o estomago seguia rua abaixo tocando a caninha recheada de sons estridentes.
Nas festas de S.João, estando a noite já estendida e o rosmaninho ardendo na fogueira do largo, Fernandinho chegou alegre com a sua caninha e no meio da confusão de figuras vermelhas suadas e destilando bagaço, o gordo Raimundo de bigode de aço amarelado lhe tirou a caninha das mãos e a atirou para a fogueira dizendo entre palavras trapalhonas e gestos emaranhados que era preciso mais lenha na fogueira. Fernandinho ficou paralisado na primeira tentativa de reagir, depois corre em direção da fogueira sendo parado pelo mestre de obras, o Maneta,  e não conseguindo chegar à fogueira, chorou alto com os mesmos sons que nos habitámos a ouvir quando soprava na caninha……Fernandinho era mudo, o que ouvia tocando na sua caninha não eram sons de melodia desafinada, era o seu grito de mudo. Um mudo a chorar.
Vitor Pires – Lembrando Fernandinho




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