O Fernandinho
Esta figura de fraca aparência, magra e ar de tonto
percorria as redondezas levando sempre nas mãos uma caninha gasta pelo seu
valor estimativo.
Imitava sons estranhos como se da alma criativa emanassem e
olhava discretamente pelos cantos dos olhos a nossa admiração por tamanhas
façanhas de mestre. Fernandinho era assim, alto,descalço, de joelhos negros e
pernas arqueadas parecia uma figura retirada de uma sombra das labaredas de uma
fogueira.
No Verão, alimentava-se de bagas e abóbora porqueira que
encontrava pelos caminhos de poeira e de Inverno alimentava-se de laranjas que
pendiam dos muros dos quintais.
Alegre e despreocupado, carregava o seu mundo que ninguém
queria carregar, dormia ao relento e ou em cabanas de pastores.
Espreitava à porta da taberna e era expulso antes de colocar
o pé para dentro das portas teimosas. O taberneiro não queria um doido na sua
taberna, faria parecer mal aos bêbados ter alguém que não estando bêbado e sem
consumo era tão doido como os fregueses. Ele apenas pedia apontando para um carapau em escabeche que estava na montra
do balcão há mais de uma semana e nem isso, nem um queijo do frasco dos queijos
em azeite, nem um ovo cozido. O taberneiro era de má tempera e a mulher que
usava um grande cruxifixo de ouro ao peito não era melhor. Fernandinho não
tinha dinheiro, não era bem vindo. Tanta fome que lhe enchia o estomago seguia
rua abaixo tocando a caninha recheada de sons estridentes.
Nas festas de S.João, estando a noite já estendida e o
rosmaninho ardendo na fogueira do largo, Fernandinho chegou alegre com a sua
caninha e no meio da confusão de figuras vermelhas suadas e destilando bagaço,
o gordo Raimundo de bigode de aço amarelado lhe tirou a caninha das mãos e a
atirou para a fogueira dizendo entre palavras trapalhonas e gestos emaranhados
que era preciso mais lenha na fogueira. Fernandinho ficou paralisado na
primeira tentativa de reagir, depois corre em direção da fogueira sendo parado
pelo mestre de obras, o Maneta, e não
conseguindo chegar à fogueira, chorou alto com os mesmos sons que nos habitámos
a ouvir quando soprava na caninha……Fernandinho era mudo, o que ouvia tocando na
sua caninha não eram sons de melodia desafinada, era o seu grito de mudo. Um
mudo a chorar.
Vitor Pires – Lembrando Fernandinho

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