sexta-feira, 29 de junho de 2018
domingo, 24 de junho de 2018
Naquela tarde cinzenta e fria de Dezembro, tocou a sineta,
pausadamente, triste e espaçada, disto não me recordo, apenas me contaram que naquele dia se tinha finado
um homem muito mau. Nasci nesse dia longínquo e talvez até me recorde do toque
da sineta pois me parece ter sido o primeiro som que ouvi.
A minha casa ficava dentro do cemitério no termo da vila,
pequenina com janelas e porta viradas e para a pequena estrada de terra batida e
lamacenta e outras janelas viradas para
a planície de cruzes de mãos dadas com flores, muitas flores . Salpicado de
ciprestes de verde escuro e tão velhos
como o cemitério, impregnados de
arraiais de pardais loucos.
A sineta era o espicaçar de me sentir vivo, o seu som
ranhoso e estridente lembrava-me que eu existia porque o ouvia constantemente e
aos poucos me fui apercebendo que o meu avô estaria puxando os cabos de tal som
exigente e de respeito. O meu avô era o coveiro do cemitério. Homem de poucas
palavras, calvo e vestido sempre de preto, nunca o vi sorrir, apenas tirava a
boina quando chegava um funeral e fumava
o seu cigarro de tabaco de enrolar ao fim do dia sentado numa campa que não
tinha nome.
Minha mãe pouco me falou da minha avó, apenas que morreu
nova tendo uma vida curta de sofrimento. Uma luzinha fraquinha surgiu no canto
do quarto dela um dia antes de morrer, essa luz, contou a minha mãe, sumiu com
o clarear do dia. Conta-se que foi essa luz que a veio buscar, descartando-se daquele
corpo cheio de chagas. Não se falava
muito da avó quando a avô estava presente, terminava tudo em silêncio estranho.
Era costume meu roubar flores de algumas campas exuberantes e colocá-las nas que estavam sózinhas, esquecidas, sem flores...
sábado, 23 de junho de 2018
Naquele dia meu patrão estava numa forma estranha e irritante de percorrer a loja.
Tinha de escrever uma carta com urgência e não sabia norte nem beira a quem pedir para escrever.
Olhou para mim e andando eu na quarta classe, achou que estaria a solução resolvida.
Chamou-me e colocando-me caneta de aparo e papel em cima de uma mesa roída de caruncho disse em voz alta: - Escreve o que te vou ditar!
Minhas mãos tremiam, meus ouvidos tentavam estar atentos, a caneta escorregava nos meus dedos esguios......e ao som do ditador, deslizava as letras medrosas e envergonhadas.....
Afinal era um texto curto....muitos meus senhores, muitos comprimentos, sim escrevi comprimentos e ele não reparou e acabou o ditado em três longas e eternas linhas feitas em montanha russa.....
Depressa pediu à Perolina um selo e babando-o s com a sua lingua escura e pegajosa, colou-o num envelope dando-lhe um tremendo murro saíndo ainda umas gotículas que se espalharam na mesa.
O nome do destino era para Raimundo Abegão do Porto. Fácil de escrever.
Entregando-me a carta num gesto solene, aponta-me a porta da rua e pede-me para ir colocar a carta no correio. Corri, sempre pegando pela carta no lado contrário ao selo babado, e cheguei à loja do Sr Quitério dizendo que tinha uma carta para seguir para o Porto.
Disse-lhe que tinha sido eu quem a escrevera e o Sr Quitério riu-se, olhando para as minhas botas rebentadas e joelhos roxos de tintura dos burros.....Dizendo: - Tu?...é feio mentir!!!!!
Tinha de escrever uma carta com urgência e não sabia norte nem beira a quem pedir para escrever.
Olhou para mim e andando eu na quarta classe, achou que estaria a solução resolvida.
Chamou-me e colocando-me caneta de aparo e papel em cima de uma mesa roída de caruncho disse em voz alta: - Escreve o que te vou ditar!
Minhas mãos tremiam, meus ouvidos tentavam estar atentos, a caneta escorregava nos meus dedos esguios......e ao som do ditador, deslizava as letras medrosas e envergonhadas.....
Afinal era um texto curto....muitos meus senhores, muitos comprimentos, sim escrevi comprimentos e ele não reparou e acabou o ditado em três longas e eternas linhas feitas em montanha russa.....
Depressa pediu à Perolina um selo e babando-o s com a sua lingua escura e pegajosa, colou-o num envelope dando-lhe um tremendo murro saíndo ainda umas gotículas que se espalharam na mesa.
O nome do destino era para Raimundo Abegão do Porto. Fácil de escrever.
Entregando-me a carta num gesto solene, aponta-me a porta da rua e pede-me para ir colocar a carta no correio. Corri, sempre pegando pela carta no lado contrário ao selo babado, e cheguei à loja do Sr Quitério dizendo que tinha uma carta para seguir para o Porto.
Disse-lhe que tinha sido eu quem a escrevera e o Sr Quitério riu-se, olhando para as minhas botas rebentadas e joelhos roxos de tintura dos burros.....Dizendo: - Tu?...é feio mentir!!!!!
sexta-feira, 15 de junho de 2018
O Senhor Silva Santos tinha uma livraria que com o tempo virou papelaria...eram papeis caidos...eram livros segurando papeis....o balcão de tábua corrida mordiscado pelo caruncho e decorado a borrões de tinta azul......o Sr Silva Santos de bata azul, entrava em cena quando abria uma cortina sebenta e perguntava sempre: O que deseja meu caro?.....Eu comprava selos para colecção.....ele pacientemente me observava para que os meus dedos não fossem umas pinças de fazer desaparecer alguns.....contava-os, 1, 2, 3, 4, 5 .....depois colocava-os dentro de um envelope pequeno de papel vegetal e dizia: São viste e cinco tostões.........eu saía pela porta em que entrava o sol e iluminava aquela figurinha torta.....eram livros caídos, eram papeis amontoados.......era a minha loja preferida......cultura oferecida ao olhar de quem entrava......cheirava a papel e a ratos......Saudades do Sr Silva Santos
Cansado de tanto perder, cansado e desiludido com o riso da infancia ...tanta saudade.......as fotos são como grilhões, ferros que nos ferem a saudade fria....tanta sombra...ausência, meu pai...minha mãe....minha tia......a vida me separa da morte...e a morte me separa da vida...a moldura da saudade......
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Um aqueduto de Óbidos.....transporte de águas para a vila.
-
E outro..e mais outro..não sei quantas horas recortando...quantos dias...uma vida de freira enclausurada. 1756
-
Canivet - recortes minuciosos.....pintura manual.....o canivet...assim chamado por ser feito com um pequeno canivete ou lâmina, recortando...
