sábado, 23 de junho de 2018

Naquele dia meu patrão estava numa forma estranha e irritante de percorrer a loja.
Tinha de escrever uma carta com urgência  e não sabia norte nem beira a quem pedir para escrever.
Olhou para mim e andando eu na quarta classe, achou que estaria a solução resolvida.
Chamou-me e colocando-me caneta de aparo e papel em cima de uma mesa roída de caruncho disse em voz alta: - Escreve o que te vou ditar!
Minhas mãos tremiam, meus ouvidos tentavam estar atentos, a caneta escorregava nos meus dedos esguios......e ao som do ditador, deslizava as letras medrosas e envergonhadas.....
Afinal era um texto curto....muitos meus senhores, muitos comprimentos, sim escrevi comprimentos e ele não reparou e acabou o ditado em três longas e eternas linhas feitas em montanha russa.....
Depressa pediu à Perolina um selo e babando-o s com a sua lingua escura e pegajosa, colou-o num envelope dando-lhe um tremendo murro saíndo ainda umas gotículas que se espalharam na mesa.
O nome do destino era para Raimundo Abegão do Porto. Fácil de escrever.
Entregando-me a carta num gesto solene, aponta-me a porta da rua e pede-me para ir colocar a carta no correio. Corri, sempre pegando pela carta no lado contrário ao selo babado, e cheguei à loja do Sr Quitério dizendo que tinha uma carta para seguir para o Porto.
Disse-lhe que tinha sido eu quem a escrevera e o Sr Quitério riu-se, olhando para as minhas botas rebentadas e joelhos roxos de tintura dos burros.....Dizendo: - Tu?...é feio mentir!!!!!


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