domingo, 24 de junho de 2018


Naquela tarde cinzenta e fria de Dezembro, tocou a sineta, pausadamente, triste e espaçada, disto não me recordo, apenas  me contaram que naquele dia se tinha finado um homem muito mau. Nasci nesse dia longínquo e talvez até me recorde do toque da sineta pois me parece ter sido o primeiro som que ouvi.
A minha casa ficava dentro do cemitério no termo da vila, pequenina com janelas e porta  viradas e  para a pequena estrada de terra batida e lamacenta  e outras janelas viradas para a planície de cruzes de mãos dadas com flores, muitas flores . Salpicado de ciprestes de verde escuro e  tão velhos como o cemitério,  impregnados de arraiais de pardais loucos.
A sineta era o espicaçar de me sentir vivo, o seu som ranhoso e estridente lembrava-me que eu existia porque o ouvia constantemente e aos poucos me fui apercebendo que o meu avô estaria puxando os cabos de tal som exigente e de respeito. O meu avô era o coveiro do cemitério. Homem de poucas palavras, calvo e vestido sempre de preto, nunca o vi sorrir, apenas tirava a boina quando chegava um funeral  e fumava o seu cigarro de tabaco de enrolar ao fim do dia sentado numa campa que não tinha nome.
Minha mãe pouco me falou da minha avó, apenas que morreu nova tendo uma vida curta de sofrimento. Uma luzinha fraquinha surgiu no canto do quarto dela um dia antes de morrer, essa luz, contou a minha mãe, sumiu com o clarear do dia. Conta-se que foi essa  luz que a veio buscar, descartando-se daquele corpo cheio de chagas.  Não se falava muito da avó quando a avô estava presente, terminava tudo em silêncio estranho.
Era costume meu roubar flores de algumas campas exuberantes e colocá-las nas que estavam sózinhas, esquecidas, sem flores...

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