Naquela tarde cinzenta e fria de Dezembro, tocou a sineta,
pausadamente, triste e espaçada, disto não me recordo, apenas me contaram que naquele dia se tinha finado
um homem muito mau. Nasci nesse dia longínquo e talvez até me recorde do toque
da sineta pois me parece ter sido o primeiro som que ouvi.
A minha casa ficava dentro do cemitério no termo da vila,
pequenina com janelas e porta viradas e para a pequena estrada de terra batida e
lamacenta e outras janelas viradas para
a planície de cruzes de mãos dadas com flores, muitas flores . Salpicado de
ciprestes de verde escuro e tão velhos
como o cemitério, impregnados de
arraiais de pardais loucos.
A sineta era o espicaçar de me sentir vivo, o seu som
ranhoso e estridente lembrava-me que eu existia porque o ouvia constantemente e
aos poucos me fui apercebendo que o meu avô estaria puxando os cabos de tal som
exigente e de respeito. O meu avô era o coveiro do cemitério. Homem de poucas
palavras, calvo e vestido sempre de preto, nunca o vi sorrir, apenas tirava a
boina quando chegava um funeral e fumava
o seu cigarro de tabaco de enrolar ao fim do dia sentado numa campa que não
tinha nome.
Minha mãe pouco me falou da minha avó, apenas que morreu
nova tendo uma vida curta de sofrimento. Uma luzinha fraquinha surgiu no canto
do quarto dela um dia antes de morrer, essa luz, contou a minha mãe, sumiu com
o clarear do dia. Conta-se que foi essa luz que a veio buscar, descartando-se daquele
corpo cheio de chagas. Não se falava
muito da avó quando a avô estava presente, terminava tudo em silêncio estranho.
Era costume meu roubar flores de algumas campas exuberantes e colocá-las nas que estavam sózinhas, esquecidas, sem flores...
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