sábado, 28 de julho de 2018
domingo, 15 de julho de 2018
Bolsas de Avaro ou usurário
Pequenas bolsas de guarda de pequenos valores que se escondiam entre as roupas interiores do sec.XIX.
Conheci o primeiro avarento na minha vida para lá dos doze anos quando comecei a trabalhar para o "judeu" de Belmonte.Figura típica que faria rir o Bordalo. Calvo de cabelo lateral em espigo parecendo dois cornos, papada de pescoço pequeno, barriga dilatada, unhas grandes, nódoas da camisola e placa dos dos dentes sempre a caír para não gastar dinheiro numa nova.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
O Fernandinho
Esta figura de fraca aparência, magra e ar de tonto
percorria as redondezas levando sempre nas mãos uma caninha gasta pelo seu
valor estimativo.
Imitava sons estranhos como se da alma criativa emanassem e
olhava discretamente pelos cantos dos olhos a nossa admiração por tamanhas
façanhas de mestre. Fernandinho era assim, alto,descalço, de joelhos negros e
pernas arqueadas parecia uma figura retirada de uma sombra das labaredas de uma
fogueira.
No Verão, alimentava-se de bagas e abóbora porqueira que
encontrava pelos caminhos de poeira e de Inverno alimentava-se de laranjas que
pendiam dos muros dos quintais.
Alegre e despreocupado, carregava o seu mundo que ninguém
queria carregar, dormia ao relento e ou em cabanas de pastores.
Espreitava à porta da taberna e era expulso antes de colocar
o pé para dentro das portas teimosas. O taberneiro não queria um doido na sua
taberna, faria parecer mal aos bêbados ter alguém que não estando bêbado e sem
consumo era tão doido como os fregueses. Ele apenas pedia apontando para um carapau em escabeche que estava na montra
do balcão há mais de uma semana e nem isso, nem um queijo do frasco dos queijos
em azeite, nem um ovo cozido. O taberneiro era de má tempera e a mulher que
usava um grande cruxifixo de ouro ao peito não era melhor. Fernandinho não
tinha dinheiro, não era bem vindo. Tanta fome que lhe enchia o estomago seguia
rua abaixo tocando a caninha recheada de sons estridentes.
Nas festas de S.João, estando a noite já estendida e o
rosmaninho ardendo na fogueira do largo, Fernandinho chegou alegre com a sua
caninha e no meio da confusão de figuras vermelhas suadas e destilando bagaço,
o gordo Raimundo de bigode de aço amarelado lhe tirou a caninha das mãos e a
atirou para a fogueira dizendo entre palavras trapalhonas e gestos emaranhados
que era preciso mais lenha na fogueira. Fernandinho ficou paralisado na
primeira tentativa de reagir, depois corre em direção da fogueira sendo parado
pelo mestre de obras, o Maneta, e não
conseguindo chegar à fogueira, chorou alto com os mesmos sons que nos habitámos
a ouvir quando soprava na caninha……Fernandinho era mudo, o que ouvia tocando na
sua caninha não eram sons de melodia desafinada, era o seu grito de mudo. Um
mudo a chorar.
Vitor Pires – Lembrando Fernandinho
Os gatos da Nhanha
Junto ao pinhal do enforcado e num amontado de tábuas
torcidas pela idade e de cobertura disforme em chapas enferrujadas, vivia a
Nhanha, uma velha que se movimentava sem tocar os pés no chão de tão fraca
figura que era, vestida de negros e ensebados trapos bordados a largos buracos que se uniam na cintura delgada adornada de
uma corda cheia de nós e borbotos. Usava um lenço negro que lhe cobria
parcialmente o rosto enrugado e emoldurado de cabelo solto grisalho e quem se atrevia a olhá-la de frente, dizia que o queixo batia no nariz pontiagudo.
Velha enigmática e solitária que em tempos inquisitoriais teria sido queimada na
fogueira em qualquer procissão de fé, mas não! Vivia calma, barraca dentro e
barraca fora, despejando baldes de água escura e arrancando erva que a pendurava em molhos no
beirado. De tempos em tempos era acossada por pequenos gaiatos malandros que
atiravam pedras para o telhado e divertiam-se vendo a nhanha saindo apavorada
da barraca de punhos erguidos amaldiçoando tamanha maldade. Ir à nhanha mandar
pedras era pratica diária da maldade juvenil, não bastava as gentes de rua que
fugiam dela porque estava suja e malcheirosa, ou porque tinha sido uma mulher
“mal-comportada” que lhe valeu a alcunha de
NHANHA, coisa asquerosa, repugnante, era uma triste figura rodeada de
moscas e gatos.
Corriam boatos que o pinhal defronte do barraco, tomou o
nome de pinhal do enforcado, por ter sido num dos pinheiros onde se matou o homem que verdadeiramente a amou
em anos muito recuados da sua juventude.Esse grande amor trabalhava num circo
como músico e ela seria filha do dono do circo. Um mal entendido, ciúmes,
invejas, desde esse fatídico dia que a pobre mulher decidiu acampar frente ao
pinheiro onde o amante se enforcou e aí ficou durante anos e anos em penitência
eterna construindo o barraco e rodeando-se de miséria coroada com a longa vida
amarga onde nem Deus alguma vez entrou ou se compadeceu. Pobre mulher, foi
vitima de todas as pragas do antigo testamento, as moscas, os ratos, os sapos,
os piolhos, e gatos…..mas os gatos em seu redor até pareciam filhos dela. Eram
ninhadas e ninhadas que surgiam entre latas, caixas e junto aos canaviais. A Nhanha falava com
eles, gritava, berrava e cantava e um deles me despertou a atenção, era
amarelinho e tinha um ar de brincalhão, era o predileto dela, pois reparava que
ela o trazia sempre ao colo.Só lhe faltava tocar um instrumento de música.
Um dia vindo da escola, reparei na Nhanha adormecida junto à
entrada da barraca, com um ar sereno, tranquilo, tinha o rosto descoberto e não
tinha o queixo colado ao nariz como todo o mundo maldizente apregoava, estava
com a boca ligeiramente aberta mostrando a ausência total dos dentes. Pela
primeira vez lhe vi o rosto cansado. O gato amarelo estava também adormecido ao
seu colo e virando o caminho olhei uma última vez aquele cenário. Senti-me
triste, senti uma mágoa tão grande que me deu vontade de chorar, senti que a
vida humana não se poderia resumir àquela cena….só a morte poderia libertar e dar
felicidade àquela mulher.
Arrependido fiquei de nunca lhe ter dito: Bom dia! Nunca
venci o medo e era tarde demais para o fazer. O barraco estava coberto de
silvas, selada a memória com espinhos e esquecimento. O gato nunca mais o vi.
De tempos em tempos vejo um gato amarelinho, tolhido pela idade, escondendo-se
entre arbustos e espinheiros no pinhal do enforcado.
Gato modelado em barro branco esmaltado – Vitor Pires fecit
quarta-feira, 11 de julho de 2018
O caldo verde
Não muito longe da vivência frenética pós a revolução,
mãe e filho caminhavam lado a lado numa estrada de pouco movimento dado a noite
ter caído sem clemência.
Vinham da casa dos senhores onde a mãe tinha servido o
jantar e limpo a cozinha como habitualmente o fazia todos os dias. O seu filho
a acompanhava depois da escola, sentado num canto da cozinha onde de cadernos
nos joelhos tentava fazer os deveres
sempre interrompido pela patroa da mãe, para lhe corrigir a seu belo prazer e temperamento o
tipo de letra que saia fora das linhas.Havia um grande relógio na parede da sala de jantar que badalava os toques
metálicos das hora infinitas, mandando no ritmo da família que se movimentava
como figuras estranhas atordoadas pelo cheiro do jantar que se esfumava em
todas as salas e corredores da mansão.
A supremacia da patroa
sobre a cozinheira era constante e insistente
à medida que o relógio ditador se aproximava das oito horas da noite. Na
sala de jantar o patriarca, em cerimónia muda ,puxava a cadeira, entalava o
guardanapo na gola da camisa e colocando as mãos sobre a faca e o garfo olhava
em direcção da cozinha. A patroa vinda da cozinha e dando um ultimo olhar fulminante
sobre a cozinheira, sentou-se na cadeira oposta ao do senhor da casa e por fim
sentaram-se os filhos e a tia velha que não sabia onde estava.
A sopa era o primeiro prato a ir para a mesa , sopa juliana
de coloridos vegetais era servida individualmente, tirada de uma terrina de
porcelana por uma velha e torta concha de casquinha. O quadro estava
pintado, todos com os beiços empurrados
para a frente, sopravam a sopa que fumegava irritando a fome que todos sentiam.
Um a um, colher abaixo e colher acima, faziam sumir a juliana dos pratos
fundos. O jantar prosseguia com a correria da cozinheira, cozinha dentro e
cozinha fora num cortejo de travessas e palamentas.
O filho da cozinheira
mantinha-se sentado no seu canto, com os cadernos arrumados na sacola
olhava a mãe avermelhada de tanto
trabalho, nem o avental florido que lhe
ficava já tão bem no inicio da tarde conseguia
alegrar aquele cenário.
O relógio da sala marcava as onze horas na noite, todos se
tinham retirado para os seus quartos e a sala parecia adormecida num silêncio.
Sobre a mesa uma jarra de cristal de pé alto, caíam algumas pétalas das rosas
sobre o naperon.
A patroa dava os últimos recados à cozinheira para o dia
seguinte e de alcofa na mão com o esbulho da juliana, mãe e filho dirigiam-se
para a porta de saída, derrotados pelo dia praticamente findado. Na rua
escurecida pelas sombras da noite e voos rasantes de corujas errantes, mãe e
filho seguiam o caminho de casa tomando atalho por azinhagas onde os grilos de
continuo ruido abafavam os pensamentos das duas almas.
Por entre dois sobreiros descarnados, um pequeno caminho de
seixos lustrados pelo luar levavam a uma pequena horta onde couves de pé
alto salpicavam o terreno ondulado.. A mãe olhando o horizonte da noite escura,
aproximou-se da horta e metendo as mãos nas folhas de couve, as puxava uma a
uma para a alcofa. O filho olhava a mãe
agitado e preocupado não fosse o dono aparecer de forquilha e cães. Ouvia-se o
quebrar dos talos das verdes folhas e o som de um tombo assustou o olhar
vigilante do filho. A mãe tinha caído, tropeçando nas suas próprias sandálias
de borracha. O filho inquietou-se e correu procurando a mãe, felizmente
estava-se levantando sem largar um braçado de couves e rindo em surdez colocou
tudo na alcofa sentindo-se que foi maior o embaraço da queda que o facto de
estar roubando as couves.
Seguiram o caminho de casa e a mãe dizia ao filho que ainda
ia fazer o caldo verde assim que chegassem. Iria saber tão bem aquele caldo verde servido em
malgas.
Aquele caldo verde ia fumegar na mesa, sem relógio, sem
pratos de porcelana, sem guardanapos de linho bordado, apenas os olhares à
mesa e as brincadeiras ao desafio e as
piadas com piada, e o cão e o gato e o rato….
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