quarta-feira, 11 de julho de 2018


O caldo verde         


Não muito longe da vivência frenética pós a revolução, mãe e filho caminhavam lado a lado numa estrada de pouco movimento dado a noite ter caído sem clemência.
Vinham da casa dos senhores onde a mãe tinha servido o jantar e limpo a cozinha como habitualmente o fazia todos os dias. O seu filho a acompanhava depois da escola, sentado num canto da cozinha onde de cadernos nos joelhos tentava fazer os deveres  sempre interrompido pela patroa da mãe, para lhe  corrigir a seu belo prazer e temperamento o tipo de letra que saia fora das linhas.Havia um grande relógio na parede  da sala de jantar que badalava os toques metálicos das hora infinitas, mandando no ritmo da família que se movimentava como figuras estranhas atordoadas pelo cheiro do jantar que se esfumava em todas as salas e corredores da mansão.
A supremacia  da patroa sobre a cozinheira era constante e insistente  à medida que o relógio ditador se aproximava das oito horas da noite. Na sala de jantar o patriarca, em cerimónia muda ,puxava a cadeira, entalava o guardanapo na gola da camisa e colocando as mãos sobre a faca e o garfo olhava em direcção da cozinha. A patroa vinda da cozinha e dando um ultimo olhar fulminante sobre a cozinheira, sentou-se na cadeira oposta ao do senhor da casa e por fim sentaram-se os filhos e a tia velha que não sabia onde estava.
A sopa era o primeiro prato a ir para a mesa , sopa juliana de coloridos vegetais era servida individualmente, tirada de uma terrina de porcelana por uma velha e torta concha de casquinha. O quadro estava pintado,  todos com os beiços empurrados para a frente, sopravam a sopa que fumegava irritando a fome que todos sentiam. Um a um, colher abaixo e colher acima, faziam sumir a juliana dos pratos fundos. O jantar prosseguia com a correria da cozinheira, cozinha dentro e cozinha fora num cortejo de travessas e palamentas.
O filho da cozinheira  mantinha-se sentado no seu canto, com os cadernos arrumados na sacola olhava  a mãe avermelhada de tanto trabalho, nem o avental florido que  lhe ficava já tão bem  no inicio da tarde conseguia alegrar aquele cenário.
O relógio da sala marcava as onze horas na noite, todos se tinham retirado para os seus quartos e a sala parecia adormecida num silêncio. Sobre a mesa uma jarra de cristal de pé alto, caíam algumas pétalas das rosas sobre o naperon.
A patroa dava os últimos recados à cozinheira para o dia seguinte e de alcofa na mão com o esbulho da juliana, mãe e filho dirigiam-se para a porta de saída, derrotados pelo dia praticamente findado. Na rua escurecida pelas sombras da noite e voos rasantes de corujas errantes, mãe e filho seguiam o caminho de casa tomando atalho por azinhagas onde os grilos de continuo ruido abafavam os pensamentos das duas almas.
Por entre dois sobreiros descarnados, um pequeno caminho de seixos lustrados  pelo luar  levavam a uma pequena horta onde couves de pé alto salpicavam o terreno ondulado.. A mãe olhando o horizonte da noite escura, aproximou-se da horta e metendo as mãos nas folhas de couve, as puxava uma a uma para a alcofa.  O filho olhava a mãe agitado e preocupado não fosse o dono aparecer de forquilha e cães. Ouvia-se o quebrar dos talos das verdes folhas e o som de um tombo assustou o olhar vigilante do filho. A mãe tinha caído, tropeçando nas suas próprias sandálias de borracha. O filho inquietou-se e correu procurando a mãe, felizmente estava-se levantando sem largar um braçado de couves e rindo em surdez colocou tudo na alcofa sentindo-se que foi maior o embaraço da queda que o facto de estar roubando as couves.
Seguiram o caminho de casa e a mãe dizia ao filho que ainda ia fazer o caldo verde assim que chegassem. Iria  saber tão bem aquele caldo verde servido em malgas.
Aquele caldo verde ia fumegar na mesa, sem relógio, sem pratos de porcelana, sem guardanapos de linho bordado, apenas os olhares à mesa  e as brincadeiras ao desafio e as piadas com piada, e o cão e o gato e o rato….




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