O caldo verde
Não muito longe da vivência frenética pós a revolução,
mãe e filho caminhavam lado a lado numa estrada de pouco movimento dado a noite
ter caído sem clemência.
Vinham da casa dos senhores onde a mãe tinha servido o
jantar e limpo a cozinha como habitualmente o fazia todos os dias. O seu filho
a acompanhava depois da escola, sentado num canto da cozinha onde de cadernos
nos joelhos tentava fazer os deveres
sempre interrompido pela patroa da mãe, para lhe corrigir a seu belo prazer e temperamento o
tipo de letra que saia fora das linhas.Havia um grande relógio na parede da sala de jantar que badalava os toques
metálicos das hora infinitas, mandando no ritmo da família que se movimentava
como figuras estranhas atordoadas pelo cheiro do jantar que se esfumava em
todas as salas e corredores da mansão.
A supremacia da patroa
sobre a cozinheira era constante e insistente
à medida que o relógio ditador se aproximava das oito horas da noite. Na
sala de jantar o patriarca, em cerimónia muda ,puxava a cadeira, entalava o
guardanapo na gola da camisa e colocando as mãos sobre a faca e o garfo olhava
em direcção da cozinha. A patroa vinda da cozinha e dando um ultimo olhar fulminante
sobre a cozinheira, sentou-se na cadeira oposta ao do senhor da casa e por fim
sentaram-se os filhos e a tia velha que não sabia onde estava.
A sopa era o primeiro prato a ir para a mesa , sopa juliana
de coloridos vegetais era servida individualmente, tirada de uma terrina de
porcelana por uma velha e torta concha de casquinha. O quadro estava
pintado, todos com os beiços empurrados
para a frente, sopravam a sopa que fumegava irritando a fome que todos sentiam.
Um a um, colher abaixo e colher acima, faziam sumir a juliana dos pratos
fundos. O jantar prosseguia com a correria da cozinheira, cozinha dentro e
cozinha fora num cortejo de travessas e palamentas.
O filho da cozinheira
mantinha-se sentado no seu canto, com os cadernos arrumados na sacola
olhava a mãe avermelhada de tanto
trabalho, nem o avental florido que lhe
ficava já tão bem no inicio da tarde conseguia
alegrar aquele cenário.
O relógio da sala marcava as onze horas na noite, todos se
tinham retirado para os seus quartos e a sala parecia adormecida num silêncio.
Sobre a mesa uma jarra de cristal de pé alto, caíam algumas pétalas das rosas
sobre o naperon.
A patroa dava os últimos recados à cozinheira para o dia
seguinte e de alcofa na mão com o esbulho da juliana, mãe e filho dirigiam-se
para a porta de saída, derrotados pelo dia praticamente findado. Na rua
escurecida pelas sombras da noite e voos rasantes de corujas errantes, mãe e
filho seguiam o caminho de casa tomando atalho por azinhagas onde os grilos de
continuo ruido abafavam os pensamentos das duas almas.
Por entre dois sobreiros descarnados, um pequeno caminho de
seixos lustrados pelo luar levavam a uma pequena horta onde couves de pé
alto salpicavam o terreno ondulado.. A mãe olhando o horizonte da noite escura,
aproximou-se da horta e metendo as mãos nas folhas de couve, as puxava uma a
uma para a alcofa. O filho olhava a mãe
agitado e preocupado não fosse o dono aparecer de forquilha e cães. Ouvia-se o
quebrar dos talos das verdes folhas e o som de um tombo assustou o olhar
vigilante do filho. A mãe tinha caído, tropeçando nas suas próprias sandálias
de borracha. O filho inquietou-se e correu procurando a mãe, felizmente
estava-se levantando sem largar um braçado de couves e rindo em surdez colocou
tudo na alcofa sentindo-se que foi maior o embaraço da queda que o facto de
estar roubando as couves.
Seguiram o caminho de casa e a mãe dizia ao filho que ainda
ia fazer o caldo verde assim que chegassem. Iria saber tão bem aquele caldo verde servido em
malgas.
Aquele caldo verde ia fumegar na mesa, sem relógio, sem
pratos de porcelana, sem guardanapos de linho bordado, apenas os olhares à
mesa e as brincadeiras ao desafio e as
piadas com piada, e o cão e o gato e o rato….
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